A CARTA DE AÉCIO A MARINA

A CARTA DE AÉCIO A MARINA

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Marina Silva comparou o documento programático de Aécio Neves, divulgado no sábado em Recife para viabilizar a declaração dela, à Carta ao Povo Brasileiro, feita por Lula em 2002, que tinha como alvo os agentes econômicos amedrontados pela artilharia do “risco Lula”. Já a carta do tucano foi endereçada especialmente a Marina e absorve algumas políticas e propostas dos governos petistas, entre elas a participação da sociedade nos conselhos relacionados com os serviços sociais, proposta por Dilma num projeto que enfrenta forte oposição do PSDB no Congresso.   O documento de sábado se compromete com uma reforma política, “a começar pelo fim da reeleição”, mas não precisa para quando seria a mudança. No programa de governo divulgado no primeiro turno, Aécio defende o fim da reeleição a partir de 2.022. Ou seja, se eleito, ele ainda poderia disputar o segundo mandato em 2018.

A distância é sempre grande entre o papel e a prática mas o documento Juntos pela Democracia, pela Inclusão Social e pelo Desenvolvimento Sustentável, com acenos à esquerda, informa que vale tudo para    tirar o PT do poder, inclusive prometer um governo com propostas semelhantes à dos governos petistas. “Vamos continuar propondo mais mudanças para melhor”, diz o texto, repetindo um mote da campanha de Dilma, “Mais mudanças”. O endereço de Marina foi assim redigido: “Para isso, é natural que contemos, nesta etapa, com as sugestões dos que, comprometidos com a mudança, se lançaram à campanha e, mesmo não obtendo votos suficientes para chegar ao segundo turno, contribuíram com suas ideias, propostas e debates para melhorar a qualidade de nossa democracia”.

Sintomáticamente, a política econômica de seu futuro governo não merece detalhamento, seja pela ausência de divergências com as propostas liberais de Marina no primeiro turno, seja por não ser conveniente aprofundar este assunto agora.

Recentemente Dilma enviou ao Congresso o projeto sobre a participação popular nos conselhos para políticas públicas, que vem sendo bombardeado pela oposição como ameaça à democracia representativa. Propõe o documento tucano agora: “a ampliação da participação popular no processo deliberativo, através da utilização das redes sociais, de conselhos e das audiências públicas sobre temas importantes,(o que) não se choca com os princípios da democracia representativa, que têm que ser preservados. Ao contrário, dá-lhes maior legitimidade.”

A CARTA DE AÉCIO A MARINA

Depois de inventariar os programas sociais iniciados no Governo FH, a carta de Aécio diz: “Nossa determinação, e com isso pessoalmente me comprometo, é levar adiante o resgate da dívida social brasileira, que é tarefa inarredável de qualquer governante. Vamos ampliar e aprimorar as políticas existentes, inclusive transformando o Bolsa Família em política de Estado e não de governo, justamente para que não sofra descontinuidade ou interrupção.” Certamente isso não agrada seus eleitores de elite que detestam o Bolsa-Família mas agora o que importa é vencer.

Há outro ponto da carta que não deve agradar eleitores conservadores de Aécio, como o pastor Everaldo e o bispo Malafaia, mas isso também agora não importaO texto prega o “combate a toda discriminação, seja étnica, de gênero, de orientação sexual, religiosa, ou qualquer outra que fira os direitos humanos e a liberdade de escolha de cada cidadão”. Significará isso apoio à lei anti-homofobia, que deixa os evangélicos arrepiados?

Num mimo especial a Marina, o tucano critica a negligência de Dilma com a demarcação das terras indígenas, prometendo empenhar-se na solução dos conflitos entre índios e produtores rurais para avançar com as demarcações. Promete também atenção aos quilombolas, cujas primeiras terras foram demarcadas por Lula. Mas é verdade, como reclama o PT, que o governo Dilma fez menos por estes dois grupos sociais. Aécio promete ênfase no desenvolvimento regional. Dilma propôs o Fundo de Desenvolvimento Regional, que enfrentou forte resistência da oposição no Congresso, que não o aprovou,

Embora enfatizando compromisso com a questão ambiental e climática, uma música para os ouvidos de Marina, ele não repete o erro dela na questão do pré-sal: “A exploração do petróleo, inclusive do pré-sal, é imperativo do desenvolvimento e não põe à margem a diversificação de fontes energéticas menos poluidoras, como as eólicas, solar, a bioenergia, o gás e, sobretudo, o uso racional da energia para poupá-la.” Pouco importa o papel da Petrobrás na descoberta da maior riqueza nacional, durante o Governo Lula, no momento em que a empresa é o Judas da campanha.

Bem ao estilo de seu avô Tancredo na campanha para o Colégio Eleitoral, Aécio define seus compromisso como sendo “a visão de brasileiro, mais do que de representante de um partido”, e prega a unidade de todos que votaram contra a continuidade: “Não para abdicarem do que crêem, mas para ajudarem a ampliar nossa visão e para podermos, juntos, construir um Brasil melhor”. Ou seja, faz um aceno à esquerda, admitindo até ampliar a própria visão, mas isso não incomoda a direita nesta altura do campeonato. Havendo a vitória, removido o PT do poder, depois tudo se ajeita.