DEBATE: DILMA RETOMOU OFENSIVA

DEBATE: DILMA RETOMOU OFENSIVA

Os eleitores é que decidem quem ganhou e quem perdeu o debate da Band, se é que houve isso, e o resultado deve aparecer ainda hoje nas pesquisas. Mas é certo que, depois da primeira semana indiscutivelmente favorável a Aécio, com as adesões e as delações criando uma onda claramente favorável ao tucano, a presidente-candidata Dilma retomou a ofensiva e pautou mais os temas do debate. Para virar o vento na segunda semana, como dissemos aqui, o comando de campanha apostava em três movimentos: um bom desempenho de Dilma no debate, a volta de Lula à cena eleitoral e o reaquecimento da militância. Este último ponto é que não parece confirmado. O vermelho ainda é desbotado nas ruas.

Um sinal claro do bom desempenho de Dilma foi a reação matinal do mercado, com a bolsa caindo e o dólar subindoAmbos falaram mais para suas militâncias, dando a linha de campanha para o próximos dias, do que para os eleitores. E ambos adotaram como prioridade a desconstrução do adversário.

DEBATE: DILMA RETOMOU OFENSIVA

Aécio esforçou-se para desconstruir o governo de Dilma. Ela, a imagem dele. O teor, todo mundo viu ou já leu a respeito. Ele atacou chamando-a de mentirosa, leviana, pespegando falas sobre corrupção, inflação, problemas de saúde e segurança. Ela revidou lembrando os escândalos da era tucana e desemprego alto, acusou-o de nepotismo e ressuscitou o caso do aeroporto. Quem saiu mais lanhado? Cada torcida acha que foi o adversário.

Veremos. Agora, com o vento um pouco virado, graças a um desempenho de Dilma que surpreendeu até os petistas mais desanimados. Por conhecê-los há muito tempo, sei quando estão muito nervosos. Dilma começa a tropeçar na construção das frases, atropela a regência e a concordância. Fez isso bem menos que em outras ocasiões, mas fez algumas vezes. Aécio tem seu riso de nervoso, que não é o seu sorriso espontâneo. E seu riso de nervoso soa como ironia ou escárnio. Só faltou mesmo dedo no olho.

A CARTA DE AÉCIO A MARINA

A CARTA DE AÉCIO A MARINA

Marina Silva comparou o documento programático de Aécio Neves, divulgado no sábado em Recife para viabilizar a declaração dela, à Carta ao Povo Brasileiro, feita por Lula em 2002, que tinha como alvo os agentes econômicos amedrontados pela artilharia do “risco Lula”. Já a carta do tucano foi endereçada especialmente a Marina e absorve algumas políticas e propostas dos governos petistas, entre elas a participação da sociedade nos conselhos relacionados com os serviços sociais, proposta por Dilma num projeto que enfrenta forte oposição do PSDB no Congresso.   O documento de sábado se compromete com uma reforma política, “a começar pelo fim da reeleição”, mas não precisa para quando seria a mudança. No programa de governo divulgado no primeiro turno, Aécio defende o fim da reeleição a partir de 2.022. Ou seja, se eleito, ele ainda poderia disputar o segundo mandato em 2018.

A distância é sempre grande entre o papel e a prática mas o documento Juntos pela Democracia, pela Inclusão Social e pelo Desenvolvimento Sustentável, com acenos à esquerda, informa que vale tudo para    tirar o PT do poder, inclusive prometer um governo com propostas semelhantes à dos governos petistas. “Vamos continuar propondo mais mudanças para melhor”, diz o texto, repetindo um mote da campanha de Dilma, “Mais mudanças”. O endereço de Marina foi assim redigido: “Para isso, é natural que contemos, nesta etapa, com as sugestões dos que, comprometidos com a mudança, se lançaram à campanha e, mesmo não obtendo votos suficientes para chegar ao segundo turno, contribuíram com suas ideias, propostas e debates para melhorar a qualidade de nossa democracia”.

Sintomáticamente, a política econômica de seu futuro governo não merece detalhamento, seja pela ausência de divergências com as propostas liberais de Marina no primeiro turno, seja por não ser conveniente aprofundar este assunto agora.

Recentemente Dilma enviou ao Congresso o projeto sobre a participação popular nos conselhos para políticas públicas, que vem sendo bombardeado pela oposição como ameaça à democracia representativa. Propõe o documento tucano agora: “a ampliação da participação popular no processo deliberativo, através da utilização das redes sociais, de conselhos e das audiências públicas sobre temas importantes,(o que) não se choca com os princípios da democracia representativa, que têm que ser preservados. Ao contrário, dá-lhes maior legitimidade.”

A CARTA DE AÉCIO A MARINA

Depois de inventariar os programas sociais iniciados no Governo FH, a carta de Aécio diz: “Nossa determinação, e com isso pessoalmente me comprometo, é levar adiante o resgate da dívida social brasileira, que é tarefa inarredável de qualquer governante. Vamos ampliar e aprimorar as políticas existentes, inclusive transformando o Bolsa Família em política de Estado e não de governo, justamente para que não sofra descontinuidade ou interrupção.” Certamente isso não agrada seus eleitores de elite que detestam o Bolsa-Família mas agora o que importa é vencer.

Há outro ponto da carta que não deve agradar eleitores conservadores de Aécio, como o pastor Everaldo e o bispo Malafaia, mas isso também agora não importaO texto prega o “combate a toda discriminação, seja étnica, de gênero, de orientação sexual, religiosa, ou qualquer outra que fira os direitos humanos e a liberdade de escolha de cada cidadão”. Significará isso apoio à lei anti-homofobia, que deixa os evangélicos arrepiados?

Num mimo especial a Marina, o tucano critica a negligência de Dilma com a demarcação das terras indígenas, prometendo empenhar-se na solução dos conflitos entre índios e produtores rurais para avançar com as demarcações. Promete também atenção aos quilombolas, cujas primeiras terras foram demarcadas por Lula. Mas é verdade, como reclama o PT, que o governo Dilma fez menos por estes dois grupos sociais. Aécio promete ênfase no desenvolvimento regional. Dilma propôs o Fundo de Desenvolvimento Regional, que enfrentou forte resistência da oposição no Congresso, que não o aprovou,

Embora enfatizando compromisso com a questão ambiental e climática, uma música para os ouvidos de Marina, ele não repete o erro dela na questão do pré-sal: “A exploração do petróleo, inclusive do pré-sal, é imperativo do desenvolvimento e não põe à margem a diversificação de fontes energéticas menos poluidoras, como as eólicas, solar, a bioenergia, o gás e, sobretudo, o uso racional da energia para poupá-la.” Pouco importa o papel da Petrobrás na descoberta da maior riqueza nacional, durante o Governo Lula, no momento em que a empresa é o Judas da campanha.

Bem ao estilo de seu avô Tancredo na campanha para o Colégio Eleitoral, Aécio define seus compromisso como sendo “a visão de brasileiro, mais do que de representante de um partido”, e prega a unidade de todos que votaram contra a continuidade: “Não para abdicarem do que crêem, mas para ajudarem a ampliar nossa visão e para podermos, juntos, construir um Brasil melhor”. Ou seja, faz um aceno à esquerda, admitindo até ampliar a própria visão, mas isso não incomoda a direita nesta altura do campeonato. Havendo a vitória, removido o PT do poder, depois tudo se ajeita.

AÉCIO GANHA A PRIMEIRA SEMANA

AÉCIO GANHA A PRIMEIRA SEMANA

O candidato tucano Aécio Neves ganhou o round da primeira semana do segundo turno. Fechou um largo leque de alianças que começaram na segunda-feira, com a adesão do PPS, e terminaram no domingo, 12, com a declaração de apoio de Marina Silva e da família Campos, depois de receber apoios à esquerda e à direita, como do PSB e do PV, Pastor Everaldo e bispo Malafaia, Clube Militar e Jair Bolsonaro, sem falar no mercado e na Bolsa, que subiu com a divulgação da pesquisa Sensus, dando ao tucano 17,6 pontos porcentuais de vantagem sobre Dilma. Para facilitar a adesão de Marina, e atrair eleitores de esquerda decepcionados com Dilma, lançou um documento que encampa propostas e políticas dos governos petistas. Deitou e rolou no horário eleitoral explorando o conselho do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, para que a população boicote a carne, que tem subido de preço, trocando por peixe ou ovos.

Os petistas admitem sua vantagem inicial mas subestimam o efeito Marina Silva. Acham que ela tem limitada capacidade de transferir votos e que, antes de sua declaração de apoio, que demorou uma semana para acontecer, já tinham ido para o colo de Aécio seus eleitores que não ficariam mesmo com Dilma. Seriam de 60% a 70% dos que votaram em Marina no primeiro turno. Contestam a pesquisa Sensus/IstoÉ, que dá uma vantagem de 17 pontos ao tucano, apontando-a como parte do esforço da mídia para criar “fatos psicológicos adversos”. No tracking da campanha de Dilma, no domingo, ela estaria um ponto à frente de Aécio.

AÉCIO GANHA A PRIMEIRA SEMANA

Avaliam que a largada vantajosa do tucano de decorreu do impacto positivo de sua virada espetacular na reta final do primeiro turno e da divulgação, ainda sob o calor da apuração, das revelações da delação premiada de Paulo Roberto Costa e Alberto Yousef. O efeito dos dois fatos já estaria se dissipando. A campanha de Dilma espera mudar o jogo na semana que começa hoje, apostando em três movimentos:

  1. Despertar a militância, que se intimidou ou ficou tonta com o resultado do primeiro turno. O PT está convocando sua tropa a voltar para a rua e enfrentar a batalha das duas próximas semanas.
  2. Lula começa amanha uma viagem de campanha pelo Norte e o Centro-Oeste. Depois irá a Pernambuco e ao Nordeste mas não quer ir agora, em cima da declaração de apoio da família Campos ao tucano.
  3. Dilma se prepara para ter um bom desempenho no debate de amanhã na TV Bandeirantes, de modo a obter melhor resultado nas pesquisas que serão divulgadas no final da semana.

Mas seu calcanhar de Aquiles continua sendo o inquérito sobre corrupção na Petrobrás, conduzindo pelo juiz Sergio Moro, que já propiciou a divulgação de revelações explosivas dos dois delatores, acusando PT, PMDB e PP de receberem propinas pagas por fornecedores da estatal. O PT vai recorrer ao STF para tentar enquadrar o juiz, acusando-o de agir com interesse eleitoral. Dilma vem sendo aconselhada a deixar este assunto com o partido, a parar de falar em golpismo e apenas defender punição para quem tiver culpa provada.

Nas duas próximas semana, os dois exércitos vão para o tudo ou nada, com todas as armas

FOGO ALTO NA DISPUTA

FOGO ALTO NA DISPUTA

O fogo está alto e vai subir ainda mais na disputa entre Dilma e Aécio pelo Palácio do Planalto.  Conforme antevimos aqui, a campanha de Dilma vem explorando ao máximo a derrota do tucano em seu estado, Minas Gerais, na disputa pelo governo local e na votaçäo para presidente. Aécio sentiu o golpe e vem passando recibo, rebatendo com o argumento de que ele e Marina juntos, ou seja, a oposição a Dilma, é que tiveram mais votos. Ele anunciou hoje a criaçäo de mais uma página na Internet, o “Mentirômetro”, só para denunciar e rebater mentiras da adversário, disse ele em São Paulo.

FOGO ALTO NA DISPUTA

A Internet e as redes sociais nunca foram tão centrais numa disputa eleitoral.  O tucano bombardeou milhares de pessoas hoje com mensagens pelo Whatsapp.  A petista bombardeou seus seguintes com mensagens desconstrutivas do adversário em sua conta no mini-blog Twitter, onde ela tem  2,87 milhöes de seguidores. Num dos mais agressivos twetts, comparou sua juventude ä de Aécio. Ela, dos 18 aos 21, na luta politica contra a ditadura. Sob a conhecida foto em que depõe na auditoria militar, a legenda: “Dilma, na labuta”. Aécio, diz o mini-blog, nesta mesma fase da vida tinha cargo comissionado na Cämara mas curtia a vida no Rio. Sob uma foto do jovem, Aécio, a legenda:  Äécio, na mamata”.

O debate de hoje ã noite promete. Pode ter puxão de cabelo, soco no estömago  e  unhada na cara.

PT X PSDB: O ENFRENTAMENTO MAIS DURO

PT X PSDB: O ENFRENTAMENTO MAIS DURO

O PT e o PSDB se enfrentaram em seis das sete eleições presidenciais pós-ditadura. Em 1994 e em 1998, os tucanos derrotaram facilmente os petistas, ganhando no primeiro turno. Em 2002, 2006 e 2010 houve segundo turno mas o PT largou com boa dianteira e venceu com folga. Agora os dois exércitos vão se enfrentar com força eleitoral equilibrada e nas condições políticas mais adversas para o petismo.

Já começou o que será uma das disputas mais tenazes e agressivas entre os dois partidos polares do sistema político brasileiro, depois de uma virada espetacular do candidato Aécio Neves. Ele ocorreu graças à desconstrução de Marina Silva, em que ele somou forças com o PT, e à sua tenacidade pessoal, que não o deixou esmorecer mesmo quando foi dado como carta fora do baralho e abandonado por aliados. Se Aécio fez um discurso light ao falar do resultado, acenando para os potenciais aliados, Dilma deu o tom da refrega, admitindo mudanças e “ideias novas” embusca dos que, mesmo no campo da esquerda, optaram pela alternância votando na oposição – seja em Marina, Aécio ou mesmo em Luciana Genro, que alcançou surpreendentes l,6% de votos.

Na nova disputa, com tempo igual de televisão, Dilma e Aécio têm imensos desafios pela frente na busca da maior fatia de apoio dos 24,8% de eleitores que não votaram em nenhum deles, dividindo-se entre Marina, outros candidatos, brancos e nulos, sem contar os 20% que se abstiveram.    À luz do resultado, não basta a Aécio conquistar os 59% dos eleitores de Marina que se dispunham a votar nele no segundo turno, nem a Dilma herdar os 24% de marinistas que estavam dispostos a optar por ela. Terão que ir além.

PT X PSDB: O ENFRENTAMENTO MAIS DURO

As pedras no caminho de cada um.

A maior barreira no caminho de Dilma é São Paulo, que deu ao tucano 45% de votos, contribuindo decisivamente para sua votação final. Afora o anti-petismo natural dos paulistas, que também detestavam Getúlio e Brizola, ali o PSDB tem sua maior fortaleza, um governador reeleito por maioria expressiva, um senador vitorioso e as forças do mercado que já se congregam para a batalha anti-Dilma. Como este é um paredão de rocha firme, ela precisará manter a dianteira conquistada em Minas, unificar suas forças no Rio e avançar ainda mais nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, desfavoráveis ao tucano.

As delações premiadas que estão sendo feitas e cuspindo acusações contra envolvidos no escândalo da Petrobrás alimentarão o discurso anti-corrupção do tucano. “Dilma vai debater corrupção com Aécio”, avisou Lula, insinuando que teremos troca de chumbo nesta área.

A derrota de Aécio em Minas – tanto na escolha do governador como na votação para presidente – abriu um flanco em seu próprio discurso, o de que seu governo em Minas, amplamente apoiado pelos mineiros, seria a prova de sua capacidade de governar o Brasil com “eficiência e decência”.  Seu maior desafio é reconquistar os votos que perdeu em Minas, apotando que eles viriam por gravidade, manter a cabeça de ponte paulista e tentar avançar no resto do país.

A corrupção e a ineficiência estarão no centro do discurso do tucano mas ele será forçado a discutir os temas que o PT colocará na agenda, reverberando que a volta do PSDB representará o fim da ênfase no combate à pobreza e no compromisso com os mais pobres.

Mas a aritmética e o discurso não decidirão uma disputa que envolverá fatores intangíveis, tanto da alma do eleitorado como das forças com real poder decisório no pais, como a mídia, o mercado financeiro, o capital produtivo que financia as campanhas e as forças políticas que agora vão se realinhar.

Não há dúvida de que o PSB fatalmente rachará na escolha do caminho a seguir em busca da sobrevivência sem Campos. Ainda que ela fique neutra, ainda que aponte o apoio a Aécio, os socialistas não marcharão unidos, com uma fração refluindo para a velha aliança com o PT.

Dilma terá que recompor-se com aliados magoados, especialmente os do PMDB que se atritaram com o PT, como a família Sarney no Maranhão. O segundo turno pode ser a hora da vingança para muitos desafetos de Dilma e do PT. Aqui entra Lula. Ninguém melhor do que ele poderá tentar recompor a aliança que o sustentou e garantiu a eleição de Dilma em 2010, quando ela era um poste. Esta aliança, ao longo do governo dela, esgarçou-se e isso contribuiu para que ela tivesse a menor votação do PT nas disputas presidenciais.

DEMORA DE MARINA DESVALORIZA APOIO

DEMORA DE MARINA DESVALORIZA APOIO

As novas exigências apresentadas pela candidata derrotada Marina Silva para apoiar Aécio Neves acentuaram o ceticismo dos dirigentes a campanha do senador tucano em relação a uma tinada de posição favorável em tempo hábil. Como diz  um deles,  Marina ficou sozinha e por último. Todos os partidos e lideranças importantes da oposição já se definiram. Já saiu a primeira pesquisa com Aécio na frente, embora em empate técnico com Dilma. Quanto mais ela demorar, diz o auxiliar, menos valor terá seu apoio.

DEMORA DE MARINA DESVALORIZA APOIO

Aécio ainda não respondeu às novas exigências apresentadas por Marina, mas é difícil que ele aceite recuar de seu compromisso com a redução da maioridade penal, um tema importante para o eleitorado conservador. Recuar poderia ter efeito semelhante ao que teve, para Marina, seu recuo em relação à união homo afetiva, junto ao eleitorado progressista.

Suspeitam também os aecistas que ela venha aumentando as exigências para ouvir um não e com isso justificar a adoção da postura de neutralidade, a mesma de 2010.

AECIO RECEBE O APOIO DE ROMÁRIO. MARINA DEVE SEGUIR REDE

AECIO RECEBE O APOIO DE ROMÁRIO. MARINA DEVE SEGUIR REDE

Hoje, no final da tarde, o candidato Aécio Neves estará no Rio recebendo o apoio do senador eleito Romário, que poderá ser usado como contraponto à decisão de Marina Silva, caso ela não declare apoio mas repita o posicionamento da Rede, que recomendou voto nulo, branco ou em Aécio , vetando o apoio a Dilma.  Entre os tucanos, a expectativa maior é a de que a terceira colocada siga este caminho, que consideram um erro: mais uma vez, ela frustrará eleitores e ficará restrita ao seu nicho eleitoral, que pouco se ampliou de 2010 para 2014.

A viagem de Aécio para o Rio sugere que, já conhecendo a  decisão de Marina, ele preferiu não ficar em Brasília para uma receber uma notícia frustrante, e deslocar-se para o Rio onde Romário anunciará seu apoio num grande evento eleitoral. Eleito senador, o ex-jogador e deputado pelo PSB deve convocar agora uma nova manifestação do movimento “Aezão”, reunindo políticos do PMDB, PSB, PROS e outras siglas que no primeiro turno apoiaram Aécio para senador e Luiz Fernando Pezão para governador. Pezão disputa agora o segundo turno com Marcelo Crivela.

AECIO RECEBE O APOIO DE ROMÁRIO. MARINA DEVE SEGUIR REDE

Aécio receberá também o apoio do candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo PMDB, contra o governador Tarso Genro, José Ivo Sartori.  Ele foi uma “zebra” não prevista pelas pesquisas, que apontavam Tarso e Ana Amélia embolados na reta final.  O PMDB gaúcho sempre foi dissidente em relação ao comando nacional que apoia o governo Dilma.

O amplo arco de apoios a Aécio foi uma segunda derrota para o PT, que viu Dilma ficar isolada, recebendo apoios poucos significativos, como o de Jean Willys e Marcelo Freixo, do PSOL.

A campanha de Aécio tem indicações de que ele sairá na frente de Dilma nas duas pesquisas nacionais que serão divulgadas nas próximas horas (Datafolha e Ibope), mas não com uma vantagem tão grande como a que foi apontada pelo instituto Veritá, que lhe deu 54,2% contra 45,2% de Dilma.

A DISCUTÍVEL CAPACIDADE DE MARINA PARA TRANSFERIR VOTOS

A DISCUTÍVEL CAPACIDADE DE MARINA PARA TRANSFERIR VOTOS

Embora vá cozinhar o anúncio até quinta-feira, Marina Silva está decidida a apoiar Aécio Neves. Segundo fontes do PSB, ela tem avaliado que o apoio a Dilma é impossível, pois seus próprios eleitores não a perdoariam, e que a neutralidade também a desgastaria muito junto a uma parte importante de sua base política.  Apoiar Aécio será a opção de menor custo político, embora vá também descontentar a ala esquerda de seu eleitorado.  Será um trunfo importante para o tucano, que já ganhou o apoio do PPS e colherá o do PSB, embora  rachado: a secção do Rio, liderada pelo ex-deputado  Vivaldo Barbosa, já avisou que ficará com  Dilma.  A repercussão positiva de um fato político traz ganhos eleitorais, sem dúvida, mas outra coisa é a capacidade de transferir votos, um atributo que nem todos os políticos têm.  Marina, até aqui, não demostrou possui-lo.  Na história recente, ninguém superou Leonel Brizola neste especialidade. Ela transferiu para Lula praticamente todo a sua votação no primeiro turno de 1989.

A DISCUTÍVEL CAPACIDADE DE MARINA PARA TRANSFERIR VOTOS

Em 2010, a capacidade de transferência de votos de Marina nem foi testada, na medida em que ela ficou neutra. Pelo resultado final, viu-se que os 20 milhões de votos que ela obteve no primeiro turno dividiram-se entre Dilma e Serra no segundo, com alguma vantagem para a petista.   Mas em sua aliança com Eduardo Campos, o resultado neste quesito não foi bom.  Quando o TSE barrou a Rede, em outubro de 2013, Marina tinha cerca de 20% de preferência nas pesquisas.   Eduardo Campos tinha 5%. Os dois se uniram, ela se tornou sua vice mas Eduardo cresceu muito pouco.  Sua maior marca, segundo a série do IBOPE, foi em junho, quando chegou a 13%.  Quando ele morreu, em agosto passado, tinha apenas 8% de preferência.  Sua campanha, naquele momento, planejava colar mais a imagem dele ä dela durante a campanha.  Marina se empenhou mas não conseguiu, até ãquele momento, transferir sua potencial votação  para Eduardo.

Nem por isso, o arco de apoios que Aécio vem recolhendo deixa de ter sua importância: a repercussão é positiva e aponta para a união de todas as forças que desejam tirar o PT do poder.  O próprio eleitor, desta vez, pode ser mais receptivo ao pedido dela, embora todo mundo saiba que parte do eleitorado de Marina,  frustrada com os governos do PT, acabará refluindo para Dilma. Aliás, o xis desta disputa está na porcentagem de votos marinistas que irá para cada um dos concorrentes no segundo turno.

COLIGAÇÃO DE DILMA ELEGE MAIORIA NA CÂMARA: 304 DEPUTADOS

COLIGAÇÃO DE DILMA ELEGE MAIORIA NA CÂMARA: 304 DEPUTADOS

Um dos resultados mais nefastos da eleição de domingo foi o aumento da pulverização partidária na Câmara. Na medida em que os partidos com representação na Casa passaram de 22 para 28, os governos serão obrigados a negociar mais para forma uma coalizão majoritária – o que não se faz sem as concessões associadas à “velha política”, a única possível no sistema. O processo parlamentar também se torna mais complicado, com dificuldades para o fechamento de acordo e a votação das matérias.   Por conta do ingresso de novos partidos ou do ligeiro crescimento dos pequenos que já tinham representação, as bancadas dos grandes partidos encolheram, embora as maiores continuem sendo do PT, PMDB e PSDB.

A coligação que apoiou Dilma Rousseff no primeiro turno foi a única a obter a maioria absoluta de cadeiras na Câmara (50% mais um, ou mais de 257 votos). Juntos os partidos da base governista elegeram 304 deputados, assim distribuídos: PT (70), PMDB (66), PSD (37), PP (36), PR (34), PRB (21), PDT (19), PROS (11), PC do B (10). Não é uma maioria de 3/5, que garanta a aprovação de emendas constitucionais sem negociação com a oposição, mas é bastante para aprovar projetos de lei e medidas provisórias.

COLIGAÇÃO DE DILMA ELEGE MAIORIA NA CÂMARA: 304 DEPUTADOS

A coligação que apoiou Aécio no primeiro turno elegeu 128 deputados, o que dele exigirá, se for eleito presidente, muita negociação para pelo menos dobrar sua base de apoio com o ingresso de outros partidos no governo. A velha política. Os deputados da coalizão estão assim distribuídos: PSDB (54), PTB (25), DEM (22), SD (15), PTN (4), PMN (3), PEN (2), PTC (2). PT do B (1).

Os partidos que apoiaram Marina Silva elegeram juntos apenas 52 deputadaos, o que rapresentaria um grande problema de governabilidade caso ela se tornasse presidente: PSB (34), PPS (10), PHS (5), PRP (3).

Na hipótese de todos os partidos da coligação liderada pelo PSB apoiarem Aécio no segundo turno e virem a apoiar um eventual governo do tucano, ele teria uma base parlamentar de 180 deputados, o que continuaria exigindo negociações para ampliá-la, atraindo partidos que hoje apoiam Dilma.

Outros 29 deputados estão distribuídos por partidos que não estiveram nas coligações do chamado G-3, como PSOL, PV e outros.

MINAS NO CENTRO DA GUERRA

MINAS NO CENTRO DA GUERRA

A votação majoritária de Dilma Rousseff em Minas (39,6% contra 36,2% de Aécio Neves), e a eleição de Fernando Pimentel em primeiro turno (53% dos votos) para o governo do estado controlado há 12 anos pelo PSDB serão o maior trunfo do PT na disputa com o tucano no segundo turno. Ainda na noite de domingo, nasceu no Palácio do Alvorada um dos slogans que, segundo fontes da campanha de Dilma, será usado intensamente na campanha: “Quem conhece Aécio vota em Dilma”.

A dupla derrota em Minas abre um flanco no discurso do candidato tucano, que apontava a grande aprovação a seu governo no estado como prova de sua competência para administrar e mudar o Brasil. Foi uma grande derrota para quem prometia “fazer barba, cabelo e bigode” – elegendo Pimenta governador, Anastasia senador e obter quatro milhões de votos a mais que Dilma no estado”.

A derrota pode ter causas objetivas, já reconhecidas pelos tucanos. Aécio impôs Pimenta da Veiga como candidato, subestimando o fato de e ele estar fora do estado há muitos anos.  Para tornar-se mais conhecido nacionalmente, ocupou-se com as viagens a outros estados e descuidou da própria campanha em Minas, apostando que os votos viriam por gravidade. No final, voltou-se para Minas, conseguiu impulsionar Pimenta mas era tarde. O resultado, de todo modo, permitirá ao PT que se o governo dele tivesse sido tão bom, os mineiros teriam elegido seu candidato a governador e dado a ele, e não a Dilma, a maioria dos votos para presidente.   Em verdade, os mineiros mais uma vez deram uma no cravo outra na ferradura. Assim como em 2002, 2006 e 2010 deram a vitória local aos tucanos e a vitória nacional ao PT, desta vez elegeram o senador tucano por ampla maioria mas votaram majoritariamente no PT para governador e presidente.

MINAS NO CENTRO DA GUERRA

A eleição de Pimentel foi a vitória mais importante obtida pelo PT no primeiro turno por várias razões: proporcionou a Dilma seu maior trunfo, garantiu ao partido o governo estadual mais importante em toda a sua história e derrotou Aécio em seu feudo. Pimentel liderou desde o início a disputa mas nunca foi um candidato especialmente incensado por Lula e a cúpula do partido. Pelo contrário, ele sempre despertou desconfianças por conta do bom relacionamento que teve com Aécio, tendo se elegido prefeito de Belo Horizonte numa rara aliança local PT-PSDB, desfeita em 2012.  No meio da campanha, quando ele liderava e Dilma ainda estava atrás de Aécio no estado, o alto comando dilmista fez gestões poara que ele passasse a colar mais sua campanha à dela, o que foi feito e deu resultados. Dilma é muito devedora do aliado, amigo e ex-companheiro de militância na resistência à ditadura.

A batalha de Minas será um capítulo importante na guerra do segundo turno e dará ao PT seu discurso mais ressonante. A de São Paulo, que praticamente garantiu o desempenho de Aécio para além do previsto pelas pesquisas, é praticamente perdida para o PT, que tratará de manter e ampliar sua grande fortificação no Nordeste.